A menopausa, acredite, aumenta o risco de um infarto. Entenda em que situações a reposição de hormônios é bem-vinda para afastar essa ameaça
Por Ana Barella
A chegada da menopausa é encarada pelas mulheres como a passagem de um furacão pelo corpo. Ondas de calor, variações emocionais e falta de desejo sexual são alguns dos muitos efeitos do climatério — termo médico relativo ao período que marca o fim da capacidade reprodutiva feminina.
Mas o que a maioria das pessoas desconhece é a ameaça que a menopausa traz ao coração. A ciência já sabe: ela, por si só, eleva o risco de infarto. A boa notícia é que a terapia de reposição hormonal (TRH), usada originalmente para amenizar os sintomas desse rito de passagem no organismo da mulher, também pode servir como uma espécie de escudo cardíaco. Já foi comprovado que o tratamento, quando bem prescrito, reduz em até 70% a probabilidade de infarto, o que está longe de ser pouco.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças cardiovasculares são as principais causas de morte entre mulheres com mais de 40 anos, fase da vida em que a menopausa começa a dar as caras. “O risco de uma mulher possuir um problema cardíaco é quase cinco vezes maior do que o de desenvolver câncer de mama, mal que as pacientes nessa faixa etária mais temem”, calcula o cardiologista Otávio Gebara, diretor clínico do Hospital Santa Paula, em São Paulo. Segundo ele, uma em cada três mulheres terá uma desordem cardiovascular após o climatério.
Nesses casos, a causa das panes costuma ser a diminuição dos níveis de hormônios femininos, que deixam de ser produzidos pelos ovários. É que essas substâncias também exercem um papel nos vasos sanguíneos. Quando começam a rarear, há uma tendência de que a concentração de colesterol ruim, o LDL, aumente, enquanto a do bom, o HDL, diminua. Além disso, a glicemia e a taxa de triglicérides são catapultadas. Isso sem contar que a carência desses hormônios favorece o acúmulo de gordura na barriga, onde ela é especialmente perigosa ao músculo cardíaco.
“A deficiência hormonal, de fato, é um dos principais fatores responsáveis por aumentar o risco de infartos”, afirma o ginecologista César Eduardo Fernandes, presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo. “Em resumo, ela gera uma degeneração na parede das artérias e estimula a formação de placas de gordura, que diminuem o fluxo de sangue”, explica.
É, portanto, graças aos danos que a falta de hormônios acarreta que a terapia de reposição ganhou a fama de aliada do peito. Mas, antes de exigir que seu médico prescreva esse tratamento, é essencial saber os casos em que ele realmente traz benefícios.
A hora certa
A reposição hormonal se caracteriza pela administração de doses de estrogênio e progesterona, assim como de substâncias que simulam o efeito desses hormônios, via oral, por implante, adesivo ou creme. Depois de uma batelada de exames, que incluem checkups ginecológicos e de sangue, o profissional descobre qual o método mais indicado e a dose perfeita para cada paciente.
“A terapia regula os fatores de risco que levam as mulheres ao infarto”, esclarece Elizabeth Alexandre, cardiologista da seção de Coronariopatia do Instituto Dante Paz¬zanese, na capital paulista. “Ela melhora o perfil lipídico, isto é, os níveis de gordura que circulam nos vasos, resguardando os vasos contra a formação de placas”, acrescenta.
A reposição hormonal se caracteriza pela administração de doses de estrogênio e progesterona, assim como de substâncias que simulam o efeito desses hormônios, via oral, por implante, adesivo ou creme. Depois de uma batelada de exames, que incluem checkups ginecológicos e de sangue, o profissional descobre qual o método mais indicado e a dose perfeita para cada paciente.
“A terapia regula os fatores de risco que levam as mulheres ao infarto”, esclarece Elizabeth Alexandre, cardiologista da seção de Coronariopatia do Instituto Dante Paz¬zanese, na capital paulista. “Ela melhora o perfil lipídico, isto é, os níveis de gordura que circulam nos vasos, resguardando os vasos contra a formação de placas”, acrescenta.
Acontece que, de acordo com os médicos, mais importante do que realizar a terapia é saber qual o momento exato de iniciá-la e o de interrompê-la. Ou seja, todas aquelas vantagens aparecem apenas se os medicamentos entrarem em cena na época certa.
O recomendado é adotar a terapia de reposição nos dez primeiros anos após a chegada da menopausa — e, quanto antes, melhor. “Depois de uma década, a maioria das mulheres já não terá vasos tão saudáveis quanto antes e os hormônios não conseguirão regenerá-los a contento”, pondera a ginecologista inglesa Heather Currie, autora do livro Tudo Sobre Menopausa (Editora Andrei) e integrante do conselho da Associação Britânica de Ginecologia. Em outras palavras, esse método previne os danos, porém não é capaz de revertê-los.
Aliás, o tratamento tem prazo de validade. Mesmo entre as pacientes que começam a se medicar na idade certa, prolongá-lo só traz riscos desnecessários. “Não é correto fazer a reposição hormonal indeterminadamente, porque, com o passar dos anos, ela aumenta a probabilidade de câncer sem oferecer benefícios”, reforça Gebara.
Contraindicações e possíveis alternativas
Não são todas as mulheres que podem se submeter à terapia de reposição hormonal. As que já tiveram câncer de mama, quadros de trombose recente ou alguma complicação no fígado, por exemplo, estão proibidas de recorrer a ela. Os especialistas também não recomendam que pessoas com histórico de tumores na família, como é o caso da atriz Angelina Jolie, lancem mão dessa estratégia terapêutica.
Não são todas as mulheres que podem se submeter à terapia de reposição hormonal. As que já tiveram câncer de mama, quadros de trombose recente ou alguma complicação no fígado, por exemplo, estão proibidas de recorrer a ela. Os especialistas também não recomendam que pessoas com histórico de tumores na família, como é o caso da atriz Angelina Jolie, lancem mão dessa estratégia terapêutica.
No entanto, essas mulheres não precisam se desesperar. Afinal, existem outras maneiras de blindar o coração das mudanças hormonais ocasionadas pela menopausa. Para as fumantes, abandonar o cigarro encabeça a lista de medidas positivas. E todas, sem exceção, devem se exercitar regularmente. Outra dica é adotar uma dieta balanceada e que conte com soja, que aplaca os sintomas da menopausa e protegeria o coração — essa vantagem se deve a um dos componentes do vegetal, a isoflavona. Só vale a pena consultar um expert antes, visto que alguns estudos põe o excesso de soja (bem como a suplementação à base desse alimento) no banco de réus por patrocinar, em tese, tumores em indivíduos com predisposição genética.
“Visitar o cardiologista com frequência para monitorar o colesterol e a pressão arterial é outro ponto importantíssimo para as mulheres acima de 50 anos”, frisa Elizabeth. Não tem mistério: dada a devida atenção à saúde geral, a menopausa deixa de ser um furacão para se transformar em uma mera brisa. E quem ganha com isso é o coração.
POLÊMICA
De inimiga a aliada do peito
Hoje, a terapia de reposição hormonal é bem vista pelos cardiologistas. Mas nem sempre foi assim. No começo do século 21, alguns artigos confundiram a cabeça dos pesquisadores. Em 2002, um levantamento americano batizado de Iniciativa para a Saúde da Mulher colheu dados de 27 mil mulheres na fase pós-menopausa. Elas foram divididas em dois grupos. Um recebeu a reposição, enquanto o outro só tomava placebo — e, claro, essa última turma não sabia que tomava cápsulas sem princípio ativo. Após cinco anos, o estudo precisou ser interrompido, porque foi constatado um aumento significativo na incidência de câncer de mama, infarto e derrame entre as pacientes que tomaram hormônio.
Hoje, a terapia de reposição hormonal é bem vista pelos cardiologistas. Mas nem sempre foi assim. No começo do século 21, alguns artigos confundiram a cabeça dos pesquisadores. Em 2002, um levantamento americano batizado de Iniciativa para a Saúde da Mulher colheu dados de 27 mil mulheres na fase pós-menopausa. Elas foram divididas em dois grupos. Um recebeu a reposição, enquanto o outro só tomava placebo — e, claro, essa última turma não sabia que tomava cápsulas sem princípio ativo. Após cinco anos, o estudo precisou ser interrompido, porque foi constatado um aumento significativo na incidência de câncer de mama, infarto e derrame entre as pacientes que tomaram hormônio.
Mais tarde, porém, os cientistas descobriram que esses resultados negativos decorriam, entre outras razões, do fato de as mulheres terem, em média, 65 anos, idade em que a reposição de fato é nociva. Aliás, as doses dos hormônios também eram altas demais. “Foi ali que percebemos como a terapia não age igualmente entre mulheres de faixas etárias distintas”, recorda Elizabeth.
Com outras pesquisas, a terapia de reposição hormonal perdeu o status de vilã para, hoje, ser considerada uma amiga do coração entre mulheres saudáveis, sem histórico de câncer, que acabaram de entrar na menopausa.
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